Culturando

Criamos o verbo CULTURANDO! Através dele vamos divulgar as diversas manifestações da cultura baiana e brasileira. Portanto, vamos conjugar juntos essa nova forma de falar de cultura.Danusa Maria, Flavia Vasconcelos e Marcelo Reis

terça-feira, julho 18, 2006

Fotografia como arte contemporânea

Flavia Vasconcelos


Para o consagrado Henri Cartier-Bresson, fotografia é “um momento decisivo da transformação do fato em linguagem mítica”. Capturar um momento do mundo real e congelar esse tempo num papel fotográfico, já foi uma ação puramente objetiva, um simples registro do concreto, uma representação do meio que nos cerca. Porém, para o diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), Heitor Reis, “a incerteza do visível passou a fazer parte da obra fotográfica que, a partir daí, foi inserida definitivamente na arte contemporânea”.
Segundo ele, hoje o fotógrafo passa a sua mensagem para a obra, reproduz as suas impressões do mundo nas imagens, adentrando assim, na cena artística moderna, na qual “as linguagens se fundem, se apropriam uma das outras, as imagens são dúbias, os materiais diversos”, explica. Sobre isso, o fotógrafo Marcelo Reis considera que esse novo estilo da fotografia, que ele chama de forma decomposta, diz respeito à independência criativa, e alerta que “este fazer pede do seu produtor uma capacidade incontestável para saber fazer”.
Técnicas novas como tirar a câmera do nível do olho, capturar pessoas cortadas ao meio, focos em postos intermediários e imagens sem pontos de fuga, estão sendo cada vez mais utilizadas. Para Reis, não usar o equipamento de forma tradicional, possibilita ao fotógrafo maior espontaneidade: “Confere, em grande parte das situações, uma naturalidade magnífica na imagem capturada, principalmente pela dificuldade que normalmente temos de filtrar os sentimentos através do prisma do equipamento”. E são esses sentimentos que o profissional, atualmente, procura apreender nas suas fotografias, que transformam essa linguagem em arte contemporânea.
Câmeras largadas ao chão, cortes transversais e atitudes determinantes, representam uma fotografia que corresponde ao momento atual, um tempo de observar muito mais do que de agir. E, é acompanhando as inovações dessa arte, que a produção fotográfica baiana marca sua presença no meio artístico mundial.“Com o olhar livre para acompanhar o“ator”, podemos simplesmente apontar a câmera para ele, de um ponto qualquer, e disparar quantos fotogramas sejam necessários, até que nos sentimos certos de termos apreendido o nosso olhar”, explica Marcelo Reis.
De acordo com o diretor do MAM-BA, o estado vive um grande momento em todas as linguagens artísticas, incluindo principalmente a fotografia. Muitos fotógrafos baianos já alcançaram um lugar de referência, e hoje são clássicos mundiais. “A Bahia já tem uma tradição de grandes fotógrafos, como Mário Cravo Neto, que é um artista que não deve nada a nenhum outro fotógrafo do mundo”, comenta.
Com sua originalidade e características marcantes, a produção de fotógrafos baianos, tem um lugar garantido no altar das artes visuais. Isso poderia ser justificado até mesmo pela riqueza de temas que a própria Bahia oferece, para se produzir imagens. O povo e sua cultura popular são, pelo menos, dois motivos entre tantos outros, que, sob o olhar de um bom fotógrafo, explicam belas fotografias já produzidas.
Quanto ao mercado voltado para essa arte na Bahia, vê-se ainda uma necessidade de maior empenho e abertura para apresentar essa linguagem à população. Para Heitor Reis, “o estado ainda precisa de um trabalho maior a nível de mercado e do imaginário popular. Ainda falta um pouco valorizar a fotografia como uma obra, dentro de um espaço cultural”. Para uma linguagem que já alcançou um estágio significativo de arte contemporânea, nada mais coerente do que divulgá-la, principalmente, para o grande público baiano.
É para agitar o mercado artístico da Bahia, falando de fotografia e mostrando sua importância, como toda arte possui, que a Casa da Photographia “invade” as galerias do estado e os centros acadêmicos de produção do conhecimento, trazendo o A gosto da Photographia ano II. Um evento que, segundo o coordenador geral, Marcelo Reis, “é a parceria e participação das instituições privadas e públicas e de pessoas verdadeiramente engajadas em um único bem comum: o de popularizar a fotografia para torná-la acessível a todos”.

Quando a fotografia passeia pela Bahia

O A gosto da Photographia volta ao cenário cultural baiano, agora com mais eventos do que o primeiro
Flavia Vasconcelos

O fotógrafo, sua obra e o grande público. Nada como juntar esses elementos, e torná-los intimamente interligados, favorecendo uma troca de impressões e conhecimento. É esse o objetivo do A gosto da Photographia ano II, promovido pela Casa da Photographia, começando a partir do dia 21 de julho até 31 de agosto. Um período intenso voltado para a fotografia, irá trazer tal arte como tema de discussão e apreciação, através de palestras, exposições e oficinas, difundindo sua linguagem para Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Cachoeira e São Félix, ambos ao mesmo tempo.
O primeiro A gosto da Photographia aconteceu em 2004 e contou com a parceria das principais galerias e museus da cidade, entre eles o Museu de Arte Moderna – BA (MAM). A idéia do projeto agradou o meio artístico baiano e causou impacto, por não ter na Bahia muitas iniciativas que investissem na fotografia, o que serviu de estímulo para essa segunda versão, agora de forma mais madura e com a grade de eventos reforçada.
Como se não bastassem as atividades programadas para o período, o A gosto da Photographia ano II realizará a campanha “Olhos que não Vêem”, o que garantirá a arrecadação de alimentos não perecíveis, que deverão ser doados no ato da inscrição para as palestras e exposições, tanto em Salvador quanto no interior do estado. Os alimentos arrecadados vão ser entregues à Aliança de Cegos, situada no Cabula, bairro de Salvador.
Vão ser em torno de 30 eventos, acontecendo nos mais de 20 espaços envolvidos, como palestras sobre antropologia e fotografia na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, com a abertura do professor doutor Etienne Saiman, da Universidade de São Paulo (Usp), exposições nas galerias do Instituto Goethe em Salvador, montadas pela Pinacoteca de São Paulo, Era uma Vez em Havana, com curadoria de Diógenes Moura, mostra do fotógrafo carioca Walter Firmo, no Centro Cultural Dannemann, em São Félix, entre outros.
O que o A gosto da Photographia ano II propõe é espalhar pela Bahia, a beleza da fotografia, toda sua dança de subjetividade e o que ela transmite. Segundo o fotógrafo Marcelo Reis, diretor da Casa da Photographia e coordenador geral do evento, os artistas e os espaços envolvidos se destacam nos circuitos artísticos baiano e nacionais: “Reunimos o que temos de melhor na nossa cidade e convidamos outros de igual importância. Todos imbuídos em propagar nossa fotografia pelos confins dos mais distantes olhares”, disse.
Para Reis, o alvo, ao elaborar esse projeto, era oferecer ao estado, um evento nos moldes dos já realizados em outras regiões do país, como em Brasília com o Foto Arte e no Rio de Janeiro com o Foto Rio, que tiveram contribuição significativa para o crescimento e fortalecimento da fotografia como arte, apresentando para a sociedade os olhares refinados dos profissionais envolvidos. Segundo o fotógrafo, a participação do Banco do Nordeste, patrocinador do evento, foi essencial para sua viabilidade, “muito mais do que por mero compromisso formal, mas por reconhecer a importância de ações regionais num país de tamanha dimensão”.
Entre os muitos eventos programados para o A gosto da Photographia ano II, está a exposição “Eu que fiz”, uma mostra da artista plástica e fotógrafa Giovana Dantas que, traz um recorte de um ensaio maior sobre a Parada Gay de Salvador, em 2005. O trabalho tem como tema principal a moda de rua, aquela extravagante, criada pelos próprios usuários. “O nome da exposição veio da pergunta que eu fiz para todos, naquele dia, Quem fez sua roupa, seu sapato? E eles diziam, com muito orgulho gay, Eu que fiz!”, explica a fotógrafa.
As fotografias do “Eu que fiz” possuem um enquadramento fragmentado. Na maioria das imagens, os rostos dos personagens não aparecem, se apegando às minúcias dos acessórios e das roupas de cores fortes e exuberantes. “A Parada Gay é um momento de muita alegria e é a ocasião que eles colocam a criatividade para fora. Eu quero mostrar detalhes de uma moda inventada por eles”, afirma. Posteriormente, os personagens e todo o trabalho vão ser apresentados em um ensaio completo sobre o tema, feito por ela e um grupo de profissionais da área.
Segundo a artista, o A gosto ano II será um momento de discussão sobre fotografia, divulgando ainda mais essa linguagem na cidade: “Propor um evento anual em Salvador com essa abrangência que o A gosto da Photographia está a cada dia alcançando, será muito bom. Vão estar presentes pessoas que trabalham com fotografia, que escrevem e falam sobre fotografia e, por isso é válido. Vamos ampliar horizontes”.

segunda-feira, junho 12, 2006

Um modelo de mercado

















Por Danusa Maria

O mercado modelo foi inaugurado em 9 de dezembro de 1912. Nessa época ele funcionava como um centro de abastecimento da cidade, onde eram comercializados frutas, verduras, carnes, peixes e etc.

O mercado já passou por diversos incêndios desde a construção, sendo que o último foi em 1984. O local também é cercado de lendas. Acompanhe abaixo quais são algumas dessas lendas que foram encontradas no site do
Mercado Modelo:

Na ocasião da visita da família Real Inglesa, em 1968, a Rainha foi presenteada com uma Penca de balangandãs. A réplica do artefato passou a ser procurada por todos os visitantes que queriam um igual ao da Rainha. Atualmente é uma das lembranças mais compradas nas lojas do Mercado Modelo.


Nessa mesma visita o Príncipe Philip bebeu um copo duplo de cachaça Suspiro de Virgem em um gole só, como todo bom baiano, para delírio da multidão que acompanhava a comitiva.

Os dois restaurantes no 2° andar, o Camafeu de Oxóssi e Maria de São Pedro ocupam o mesmo espaço, convivendo em perfeita harmonia.

Os vigias que tomam conta do mercado a noite relatam que ouvem ruídos de corrente dos escravos que, segundo a lenda, teriam habitado o subsolo.

domingo, junho 11, 2006


Foto: Flavia Vasconcelos
Juazeiro do Norte- Ceará

quarta-feira, junho 07, 2006

Exposição


Flavia Vasconcelos
"Bahia- Litoral e Sertão" é a mais nova exposição do Museu Tempostal, no Pelourinho. O tema são os espaços urbanos (interiores da Bahia e Salvador), que, na época, ainda não tinham sido devorados pelos condomínios, shoppings e pelos impactos ambientais provenientes desse desenvolvimento. São 204 imagens de cartões postais e fotografias de 39 cidades baianas. Lá, poderão ser encontradas, por exemplo, imagens de 1897 e 1905, de Cachoeira e Fonte da Bica de Itaparica, respectivamente. A exposição vai estar em destaque até o dia 30 de junho, e já está em exibição desde o dia 19 de maio, de terça à sábado, das 13 às 18h. O museu se localiza na Rua Gregório de Matos, 33. Para mais informações sobre o evento, entrar em contato pelo número (71) 3322-5936.
*foto retirada do site www.ibahia.com.br

segunda-feira, junho 05, 2006

Branco com sangue negro

Foto de Pierre Verger




Por Danusa Maria

Pierre Verger. Ou melhor, Pierre Fatumbi Verger. Era como gostava de ser chamado o francês mais africano de todos os tempos. A importância desse etnólogo e fotógrafo para a Bahia e o povo africano é sem sombra de dúvidas incomensurável. Dedicou anos de sua vida a estudos da relação áfrica-bahia, já que, apaixonou-se pela cultura negra. Pierre tinha sangue negro, sem dúvida.

Nascido em Paris no dia 4 de de novembro de 1902 e de família rica, Pierre repugnava a elite parisiense da época. De certa forma sentia que seu lugar não era ali. Era no mundo. E foi assim que fez o nosso olhar viajante. Sem casa e vivendo de "bicos", Pierre não gostava de se prender a uma empresa e receber salários fixos. Seu maior prazer era receber encomendas e ganhar as passagens aéreas para suas viagens. Foi dessa forma que chegou à Africa e se encantou pela riqueza cultural de lá. Como um acaso do destino, Pierre veio parar na Bahia em pleno regime militar e imediatamente fez uma ligação da Bahia, local que para ele só tinha negros, e a África.

A partir daí sua importância como etnólogo cresceu e passou a ganhar respeito das Universidades que lhe cedia bolsas de estudos. Sem formação acadêmica e com o 2° grau incompleto, demorou para conseguir o que almejava.

Pierre foi um gênio da fotografia. Apesar de ser fotógrafo sem querer. Suas fotos eram apenas uma forma de retratar o povo dos locais que viajava e devido à tamanha beleza e diferencial nas suas imagens, passou a ser reverenciado na área.

O homem que não ligava para bens materias e que vivia solto no mundo tinha medo da velhice. Queria morrer antes dos 40 anos. Se tivesse cumprido a promessa de se suicidar, certamente nossos olhos, a Bahia e a África, seriam menos ricamente ilustrados.

"Nascido de novo graças ao Ifá", esse é o significado do Fatumbi. Homenagem merecidamente aplicada ao homem francês-africano-baiano que foi Pierre Verger.

Arrasta o pé meu povo!

Foto: óleo sobre tela de Yole Travassos
Por Danusa Maria


Semestre acabando, festas chegando e o estresse no ar. O clima de corre corre faz as pessoas enlouquecerem e rezarem para o São João chegar. Essa festa caipira demais da conta é festejada principalmente no Nordeste e mobiliza a todos para dançar um forrozinho e tomar um licor.

Este então,tem de laranja, maracujá, passas, morango, ameixa, cereja, amendoim, jenipapo... As opções não infinitas e tem pra todos os gostos. Na mesa do São João tem além de bebida, milho, amendoim, canjica e cuscuz . As crianças pulam figueiras e os adultos soltam as temidas espadas.

“O nome joanina teve origem, segundo alguns historiadores, nos países europeus católicos no século IV. Quando chegou ao Brasil foi modificado para junina. Trazida pelos portugueses, logo foi incorporada aos costumes dos povos indígenas e negros.” Site www.arteeducacao.pro.br

Demos uma alegria especial à festa e a tornamos tão característica que poucos sabem que sua origem não é nordestina. Nascida aqui ou não, adotamos essa festa e a festejamos todos os anos.

E então, vamos pular fogueira, ou não??

VIVA SÃO JOÃO QUE ESTÁ POR VIR!!!

quinta-feira, junho 01, 2006

Salve salve Riachão!


Flavia Vasconcelos

Clementino Rodrigues, nascido em 1921 na Língua de Vaca, no bairro do Garcia em Salvador, começou a fazer seu samba aos 12 anos de idade e, de lá pra cá, faz história na música popular brasileira. Estou falando do famoso malandro sambista Riachão. Suas músicas sempre retratam fatos do dia a dia de Salvador, de forma bem original e irreverente. Até hoje mora no mesmo bairro que nasceu. Seu apelido surgiu na época de infância e, de acordo com entrevista que deu no extinto Diário de Notícias, veio do seu jeito de ser. "Quando menino eu gostava muito de brincar . Mal acabava uma peleja, já estava eu disputando outra. E aí chegava os mais velhos para desapartar epregando aquelo velho ditado popular: - Você é algum riachão que não se possa atravessar?", disse. Junto com Ivone Lara, Nelson Sargento e mais alguns artistas consagrados da velha guarda, Riachão tem seu lugar garantido nos clássicos da música popular brasileira.

Fonte:
http://www.facom.ufba.br/pexsites/musicanordestina/riachao.htm

quarta-feira, maio 31, 2006

Belém. Cores do norte - exposição realizada em Belém; Salvador e São Paulo







Cidade e Imagem

Este ensaio, antes de tudo, é uma aproximação sensível do universo cromático da cidade de Belém.O fotógrafo Marcelo Reis enfrenta um desafio duplo: ao sair da Bahia, sua terra natal e território de cores por excelência; busca novos tons em outra cidade. Ao chegar em Belém, território desconhecido, encontra uma paisagem vibrante, porém muitas vezes quase monocromática.Marcelo enfrenta a situação com naturalidade e um despojamento que se dá na própria atitude de captar a cidade sem a preocupação documental. É com esse espírito livre que ele constrói um mosaico de imagens que nos aproximam da ambiência da cidade. Um mosaico é constituído de peças diferentes que juntas, criam harmonia. Há diferença e equilíbrio neste ensaio e uma boa e necessária dose de despretensão. É na diferença e no despojamento que o fotógrafo passeia, fragmenta, abre o seu campo de possibilidades. Neste percurso, corre riscos, pois é naturalmente fácil perder-se diante de muitos caminhos. É aí que percebemos uma instabilidade no fato do fotógrafo ter incorporado muitos elementos, absorvido em demasia a cidade e seus universos múltiplos. Mesmo assim, ele consegue recuperar com rigor estilístico o seu fio da meada. É no resultado final, na habilidade da composição e na compreensão da diversidade dos elementos que o fotógrafo imprime um certo equilíbrio. Percebemos linhas paralelas em seu trabalho, mas que se encontram na fina percepção e no potencial gráfico das imagens.Podemos destacar especialmente as imagens mais minimalistas quanto ao uso da cor, mesmo quando o elemento humano está presente na imagem. É o caso do homem no balcão encoberto pela cortina vermelha ou o tom barrento da pele das pessoas na corda da procissão.O compromisso do fotógrafo com a realidade é absolutamente plástico. Essa é a sua vocação. As zonas de instabilidade estão aqui para provocar não só no espectador a relação que se tem com a realidade; como também no próprio fotógrafo a reflexão sobre o seu processo criativo.
É no despojamento em captar e no rigor da construção da imagem que está o movimento sensível do seu trabalho.

Mariano Klautau Filho
Fotografo pesquisador da UFPA
Belém – Pará
10/2003

A Distância do Olhar

A Distância do Olhar


O olho humano é dotado de uma eficiência que permite ao homem ver uma imagem que se coloca à distância de seu observador; tal condição interfere sensivelmente na percepção dos atos a que a ação esteja sujeita. Fotograficamente falando, podemos subverter esta ação através de mecanismos óticos conhecidos no mundo todo como lentes ou mais tecnicamente objetivas. As lentes permitem ao indivíduo observador penetrar na ação de tal forma, que poderá sentir o fôlego saindo pelas narinas de seu retratado, possibilitando assim um ganho no que poderíamos chamar de intimidade fotográfica; seria o mesmo que afirmamos que estivemos próximos sem estar.O ato fotográfico e determinante para a obtenção de uma grande fotografia, pois todos sabem que a distância física entre o retratado e o retratista influenciará diretamente na comoção dos atos; é preciso continuar invisível todo o tempo para poder roubar a expressão mais íntima de cada pessoa, independentemente do momento. Sabemos também claramente que o culpado ou a razão para essa transposição facial, se é que devo usar este termo, é unicamente, talvez o maior ganho da humanidade: a civilização. O individuo civilizado se protegerá da câmara fotográfica exatamente como quem se defende de um solavanco, absolutamente por efeito dos reflexos. Deste modo podemos perceber a influência do que chamamos de – A distancia do olhar –; é preciso estar perto, muito perto, mesmo que não fisicamente, ouvir o fôlego, sentir o cheiro do suor humano ou até mesmo a pulsação excessiva.Grandes fotógrafos se tornaram famosos e dignos dos reconhecimentos obtidos por ousar com a tradicional lente normal. Robert Capa mesmo disse que “uma fotografia só se tornará boa mesmo, se você estiver realmente perto”. Sabemos que esta lente, a normal, confere à fotografia uma plástica natural, digamos que humana, sem distorções ou mesmo achatamentos da imagem; outros, porém, saberão usar sensivelmente a distância dada por uma lente de maior afastamento. Quanto maior o afastamento conferido por uma lente e quanto mais capaz for o usuário, melhor o resultado conferido ao trabalho.Numa situação, onde o afastamento ótico se torna essencial para a obtenção de um bom resultado, podemos notar como é determinante a utilização deste procedimento; obviamente, neste caso, a relação e a intimidade com os retratados ajudam a marcar e determinar qual o momento para oferecer à imagem mais realidade. Deste modo posso afirma que uma boa relação entre o fotógrafo e o fotografado é essencial (quando possível) para um bom registro.

Marcelo Reis
publicado na revista photos em
09/2003
www.marceloreis.com

Mario Cravo Neto

Mario Cravo
Salvador
post: Marcelo Reis





A FOTOGRAFIA DE MARIO CRAVO NETO É FORÇA PURA, que se torna mais perceptível e impactante à medida que os índices da imagem transformam-se em veículos de alguma identidade ancestral prova de que o natureza dos objetos da cena, quando associada ao caráter de um artista sério e respeitado, é o traço de conexão entre os homens e a divindade.
Cada imagem, produzida cuidadosa e conscientemente, advém de um jogo complexo que se desenvolve entre a mimesis do corpo que experimenta e representa, com a herança explícita das vivências culturais. Mario Cravo Neto prefere realizar seus retratos segundo um conceito estético assumido, onde o fundamental é a tensão e a inquietaçao, percebidas nos paradigmas constitutivos da sua fotografia. Ele acredita que todo trabalho criativo tem um fundo místico, ou seja, uma relação do homem com o desconhecido, com o imponderável, com o imprevisível.
As fotografias mostram a diversidade do artista que se definiu diante de uma multiplicidade de influências. A experiência do tempo pode ser demonstrada numa variedade de caminhos: ora e o fotógrafo formalista em busca da organicidade, ora é o fotógrafo que registra urna figuração diretamente retirada do imaginário religioso, ora é o fotógrafo memorialista que tenta preservar o senso da revelação mística através das alegorias dos rituais.
É possível encontrar os vários significados que dão fé à capacidade de síntese de Mario Cravo Neto que traz para seu universo conceitual referencias específicas e sutilezas da cultura afro-brasiIeira. Ele propõe a criação de um universo inventivo e singular, evidenciando ao mesmo tempo um diário contemporâneo que iconiza o sensível, o estranhamento, a melancolia e a angústia. A experiência dos limites do realismo e da memória é percebida através da acumulação do tempo e das inscrições das luzes nos corpos e nos objetos.
Memória, para Aristóteles, é a deusa que impede o esquecimento, que está do lado da luz, da vidência inspirada, da antevisão do futuro pela compreensão profunda do sentimento do passado. Nesse sentido podemos flagrar no trabalho de Mario Cravo Neto uma relação direta com o fotografo e etnógrafo Pierre Fatumbi Verger, um dos maiores estudiosos dos fundamentos históricos, mitológicos e ritualísticos de origem africana.
Mario Cravo Neto deixa claro que Pierre Verger foi o fotografo que mais influenciou seu trabalho em relação à possessão espiritual do corpo. "Ele é o maior fotografo contemporâneo vivo da atualidade". Só que enquanto Verger desenvolveu seu trabalho no campo, Mario Cravo Neto realiza seu trabalho no estúdio.
Por trás dessa nostalgia da representação, ele cria um jogo de forcas antagônicas, onde o mistério, o dramático, o religioso afloram com a mágica transcendência do olhar.
Neste universo íntimo - projetivo, imaginário e simbólico - a essência do trabalho e a poética do silêncio. Ou como escreveu o respeitado crítico norte-americano A. D. Coleman "for all its quietude, Mario Cravo Neto’s world is an optimistic one that bursts with life".
Minimalista, sua acuidade na descrição fotográfica evoca as cicatrizes e as delicadezas de uma herança deixada pela escultura, linguagem que desenvolveu no inicio de suas atividades artísticas. Mario Cravo Neto propõe uma teia de associações que surpreende pela variedade de situações e por sua força imaginativa.
Mas, nunca esquece que sua linguagem e a fotografia. Mario Cravo Neto sabe que proporções, composição e ambiente são critérios importantes na elaboração de sua sintaxe. Sofisticado, ele prefere os detalhes das baixas luzes e a ousadia do foco crítico paro dimensionar os volumes e evidenciar as diferentes texturas.
Alias, a sensação da tatilidade é outro aspecto interessante na obra de Mario Cravo Neto A sensação tátil é ressaltada pelo intensidade de luz e sombra do jogo cênico, pelo ambiente mágico e misterioso e pelos objetos que evocam os mais diversos contextos. Na cultura contemporânea, o olhar é predominante em relação ao cheiro, ao gosto, ao toque, à audição. Nesse momento de dominação do olhar o corpo perde sua materialidade. Transforma-se em imagem, representação.
Com admirável capacidade criativa, Mario Cravo Neto utiliza todo o aparato técnico da fotografia e sua experiência pessoal, para produzir um trabalho provocativo que pela sua transcendência revitaliza as sensações, desejos, medos e fantasias. Fotografias que permitem-nos transitar entre o imaginaria religioso e místico e o abismo que nos separa do real.

WALTER FIRMO, ARTE É BRINCADEIRA - II











Walter Firmo/ Paris

Por Marcelo Reis

WALTER FIRMO, ARTE É BRINCADEIRA



ARTE É BRINCADEIRA
Post de Marcelo Reis

Consta que o presidente Charles de Gaulle declarou certa vez que o Brasil não é un pais sério. Se o presidente Charles de Gaulle tivesse conhecido a obra do fotografo brasileiro Walter Firmo, diria certamente que ele não é um artista sério. E isto com toda razão, pois que o Walter Firmo é um artista brincalhão. O que significa dizer que é um verdadeiro artista. Porque arte é brincadeira. Não brincadeira de adulto, adulto não sabe brincar, brincadeira de criança.
A maioria dos artistas que eu conheço são sérios e consequentemente chatos. Porque ? Porque são previsíveis. Abordam sempre os mesmos temas, da mesma maneira, através dos mesmos parâmetros padronizados. Criaram uma marca registrada. Desejam ser identificados para vender sua "arte" como enlatados de super-mercado.
O Walter Firmo circula na contra-mão desta auto-estrada do mercado artístico. Ele só gosta de brincar e só quer se divertir. E haverá melhor modo de viver ? E haverá maneira mais sabia de criar ? Picasso, Chaplin, Calder, Fellini e Machado de Assis fizeram o mesmo.
Nesta sua nova exposição "Paris, Arrêt sur Images" o Walter Firmo esta brincando de imitar. Tem pseudo-artista que leva a imitação a sério e ganha a vida imitando, crente que esta criando. O Walter Firmo ao contrario esta pura e simplesmente brincando de imitar, uma das brincadeiras prediletas das crianças. Mas brincando de imitar KERTESZ, BRESSON, DOISNEAU, ATGET, BRASSAÏ, LARTIGUE e NADAR ele nos mostra e prova que os compreende muito bem e que é capaz de imitá-los tão sutilmente a ponto de transfigurá-los, de transmutá-los, de reinventá-los.
Pense bem amigo leitor, no significado do verbo REINVENTAR ... Pensou ? Reiventar não seria a melhor definição de criar ? Mas amanhã o Walter Firmo estará brincando outro tipo de brincadeira e se divertindo e nos divertindo de outra forma. Porque como as crianças Walter Firmo não respeita padrões, não porssui "estilo" e pulou o muro dos fundos de todas as escolas. É por isso que durante as vernissagens das exposições do Walter Firmo reina um clima de parque de diversões, todo mundo chega cedo e ninguem quer ir embora.
É por isso que as bem-humoradas fotos do Walter Firmo nos fazem sorrir e renovam o nosso amor pela FOTOGRAFIA.
É por isso que todo mundo quer aprender a fotografar com o Walter Firmo e seus ex-alunos se tornam ótimos fotógrafos.
Enfim, é por tudo isso que o Walter Firmo não é um artista serio.
Mas... E o Brasil, porque sera que o general Charles de Gaulle teria dito que o Brasil não é um pais sério ?
Estranho, o Brasil sempre foi um país tão organizado. Tão confiável. Tão... Ah ! Sera que foi porque o Brasil em vez de um só presidente general teve vários generais-presidentes ?
Fernando Costa. Fotógrafo, professor de fotografía, conferencista, escritor.

FONTE: http://www.fluctuat.net/expos/photos/firmo/Fernando_po.htm

Diante das Fotos de Evandro Teixeira - II

Queen Elizabeth, Sao Paulo
1968

Por Marcelo Reis

Diante das Fotos de Evandro Teixeira



Diante das Fotos de Evandro Teixeira
Carlos Drummunt de Andrade
Postado por Marcelo Reis
A pessoa, o lugar, o objeto estão expostos e escondidos ao mesmo tempo só a luz, e os dois olhos não são bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto. É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa, um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras. Fotografia - é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo, edifica uma penanência, cristal do tempo no papel. Das luas de rua no Rio em 68, que nos resta mais positivo, mais que as fotos acusadoras, tão vivas hoje como então, a lembrar como a exorcisar?Marcas de enchente e do despejo, o cadáver inseputável, o colchão atirado ao vento, a lodosa, podre favela, o mendigo de Nova York, a moça em flor no Jóquei Clube, Garrincha e nureyev, dança de dois destinos, mães-de-santona praia-templo de Ipanema, a dama estranha de Ouro Preto, a dor da América Latina, mitos não são, pois são fotos. Fotografia: arma de amor, de justiça e conhecimento, pelas sete partes do mundo a viajar, a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.